Opinião; Na Missa de Páscoa Padre Solano provoca reflexão: estamos prontos para ir primeiro?
Na missa deste Domingo de Páscoa, o Padre Solano Tambosi, pároco da Paróquia Nossa Senhora da Glória, trouxe uma reflexão tão simples quanto profunda ao recordar o trecho do Evangelho em que João chega primeiro ao túmulo de Jesus. Mais do que uma informação bíblica, a passagem foi apresentada como um chamado à atitude, à prontidão e ao serviço. Em outras palavras: na vida, também somos convidados a “chegar primeiro” quando o assunto é fazer o bem, servir, ajudar, amar e nos colocar à disposição.
Essa reflexão toca fundo porque confronta diretamente o tempo em que vivemos. Nunca tivemos tantos recursos, tanta informação, tanta conexão, e, ao mesmo tempo, tantas desculpas para adiar o essencial. Há muita gente esperando o outro tomar a iniciativa. Esperando o outro pedir perdão primeiro. Esperando o outro ajudar primeiro. Esperando o outro visitar, ouvir, acolher, perdoar, encorajar ou se comprometer. Em muitos momentos, a sociedade parece treinada para opinar depressa, mas hesitar em servir. Falar muito, mas agir pouco. Reclamar bastante, mas se levantar raramente.
O que o Evangelho nos ensina, e o que a reflexão do padre reforçou com força nesta Páscoa, é que a fé verdadeira não combina com passividade. Quem foi tocado pela ressurreição não pode permanecer acomodado. A Páscoa não é somente a celebração de um milagre do passado; ela é um apelo vivo para uma transformação no presente. Jesus vive. E, se Ele vive, então nossa fé também precisa viver em atitudes concretas.
Servir, porém, nem sempre parece grandioso aos olhos do mundo. Muitas vezes, servir é fazer o que ninguém quer fazer. É levantar cedo para cumprir um dever sem aplauso. É estar presente quando seria mais confortável se ausentar. É ajudar sem postar. É ouvir sem interromper. É perceber a dor do outro sem esperar que ela venha embrulhada em palavras bonitas. É visitar um doente, orientar um filho, ter paciência com um idoso, incentivar alguém desanimado, assumir responsabilidades quando todos recuam. O serviço quase nunca vem acompanhado de palco, mas sempre vem acompanhado de propósito.
Nos dias atuais, um dos maiores perigos é justamente o comodismo disfarçado de normalidade. A pessoa não faz o mal diretamente, mas também não se move para fazer o bem. Não agride, mas se omite. Não destrói, mas também não constrói. E, aos poucos, vai se instalando uma vida morna, sem coragem, sem iniciativa, sem entrega. É o tipo de existência que se acostuma com o mínimo, que se abriga na zona de conforto e que troca missão por conveniência.
A mensagem pascal vem para romper essa lógica. João correu. Ele não ficou esperando as circunstâncias ideais. Não ficou calculando se valia a pena. Não ficou debatendo possibilidades. Ele simplesmente foi. Esse detalhe do Evangelho carrega uma beleza imensa: há momentos em que a fidelidade pede pressa. Pressa para amar. Pressa para servir. Pressa para fazer o bem enquanto ainda há tempo. Porque a vida não espera eternamente a nossa disposição.
Quantas famílias hoje precisam de alguém que “chegue primeiro” com humildade? Quantos ambientes de trabalho precisam de alguém que “chegue primeiro” com ética, iniciativa e espírito de cooperação? Quantas comunidades precisam de pessoas que não apenas apontem problemas, mas se ofereçam para ser parte da solução? Quantas relações estão feridas porque ninguém quer dar o primeiro passo? Em muitos casos, o milagre que esperamos começa exatamente quando alguém decide sair do conforto e assumir a responsabilidade do amor em ação.
Servir é uma das expressões mais maduras da fé cristã. Porque servir exige renúncia do ego. Exige abrir mão da centralidade do “eu” para perceber a necessidade do outro. Exige disposição interior. E isso não nasce de uma religião de aparência, mas de um coração verdadeiramente alcançado pela ressurreição. Quem entende a Páscoa não vive apenas para si. Quem crê no Cristo vivo não pode viver anestesiado, indiferente ou preso à própria comodidade.
A reflexão do Padre Solano, nesta manhã pascal, ecoa como um convite necessário para todos nós: que sejamos mais prontos, mais disponíveis, mais corajosos. Que a gente não espere sempre pelo movimento do outro. Que possamos, também nós, correr quando o bem nos chamar. Que sejamos os primeiros a servir, os primeiros a estender a mão, os primeiros a perdoar, os primeiros a agir com generosidade.
Porque, no fim das contas, uma vida que vale a pena não é a que acumulou mais conforto, mas a que ofereceu mais amor. E talvez a grande pergunta desta Páscoa seja justamente essa: em que áreas da minha vida eu preciso deixar o comodismo e voltar a correr na direção daquilo que Deus espera de mim?
A ressurreição de Cristo não combina com uma fé parada. Ela nos chama para frente. Nos chama para fora. Nos chama ao serviço. E talvez o mundo esteja precisando, mais do que nunca, de pessoas que entendam isso e decidam, de uma vez por todas, ir primeiro.
Equipe editorial do site Tropical Notícias, formada por jornalistas e redatores especializados em cobrir os principais acontecimentos da região.














