“O que aconteceu com a nossa palavra?”
Há séries que entretêm. Outras ensinam. E existem aquelas que, de vez em quando, dão um verdadeiro soco no nosso estômago.
“The English Game”, produção da Netflix ambientada na Inglaterra dos anos 1870, é uma dessas. A história acompanha dois jogadores de origens sociais completamente diferentes e o conflito entre uma elite que dominava o futebol e uma classe trabalhadora que começava a transformar o esporte.
Mas, para mim, o futebol é quase um detalhe.
O que realmente chama a atenção é a discussão sobre princípios.
Em vários momentos, a série nos coloca diante de homens que acreditam que determinadas regras precisam ser respeitadas mesmo quando cumpri-las custa caro. E é justamente aí que ela começa a incomodar.
Porque é muito fácil defender a honestidade quando ser honesto não nos custa nada.
Difícil é manter a palavra quando quebrá-la pode trazer vantagem.
Difícil é respeitar uma regra quando ninguém está olhando.
Difícil é fazer a coisa certa quando fazer a coisa errada parece ser o caminho mais rápido para ganhar.
E aqui está uma das grandes lições de The English Game: caráter não é aquilo que fazemos quando estamos sendo observados. É aquilo que fazemos quando poderíamos fazer diferente e ninguém descobriria.
Os chamados gentlemen da história podem até carregar consigo todas as contradições de uma sociedade marcada por diferenças de classe. A própria série mostra essas tensões. Mas existe ali uma noção de honra, compromisso e responsabilidade que hoje parece, em alguns ambientes, estar entrando em extinção.
E isso deveria nos preocupar.
Vivemos uma época em que muita gente não pergunta mais: “Isso é certo?”
Pergunta: “O que eu ganho com isso?”
É uma mudança pequena na pergunta, mas gigantesca no resultado.
Se uma mentira resolve o problema, mente-se. Se uma pequena trapaça garante vantagem, trapaceia-se. Se existe uma brecha, usa-se. Se ninguém vai descobrir, então parece que está tudo bem.
Não está.
O filósofo Immanuel Kant defendia uma ideia incômoda: devemos agir segundo princípios que poderiam valer para todos. Em outras palavras, antes de fazer alguma coisa, talvez devêssemos perguntar: “E se todo mundo fizesse exatamente o que eu estou fazendo?”
Imagine se todos justificassem uma pequena desonestidade porque “não vai fazer diferença”.
Pois é.
A pequena desonestidade de um indivíduo, quando multiplicada por milhões, vira cultura.
E talvez seja justamente essa a grande provocação de The English Game.
O mundo não precisa apenas de pessoas inteligentes. Precisa de pessoas confiáveis.
Não precisamos apenas de vencedores. Precisamos de gente que saiba vencer sem perder aquilo que realmente importa no caminho.
Porque ganhar uma partida é ótimo. Ganhar dinheiro também. Conquistar poder, reconhecimento, posição, influência… tudo isso pode ser muito bom.
Mas existe uma pergunta que deveria acompanhar cada conquista:
Quanto de mim eu precisei perder para chegar até aqui?
No fim das contas, talvez essa seja a verdadeira partida que todos nós estamos jogando.
E, nessa, não existe juiz, VAR ou replay.
Existe apenas a nossa consciência.
E aí fica a pergunta: se ninguém estivesse olhando, você continuaria fazendo exatamente a mesma coisa?
Se a resposta for sim, parabéns.
Talvez ainda exista um gentleman dentro de nós.
Se a resposta for não… bom, talvez seja hora de rever as regras antes que alguém precise apitar o fim do jogo.
Equipe editorial do site Tropical Notícias, formada por jornalistas e redatores especializados em cobrir os principais acontecimentos da região.
Jornalista com especialização em Comunicação e Marketing, possui formação internacional em Coaching e Leadership pela Ohio University (EUA) e especialização em Docência do Ensino Superior. Atualmente cursa MBA em Inteligência Artificial. Palestrante e consultor em Desenvolvimento Pessoal com 21 anos de experiência em comunicação e vivência cultural em 12 países.















