Reinaldo Polito: “Lula ‘faz o diabo’ para reverter as intenções de voto, mas Flávio reage com firmeza”
A poucos dias da votação do segundo turno para presidente, Lula raspa o tacho com todas as medidas disponíveis para a caneta presidencial. É uma tentativa quase desesperada para reverter uma incômoda vantagem conquistada por Flávio Bolsonaro. O presidente percebeu que, insistindo nas mesmas estratégias, não sairia do lugar. (Fonte JOVEM PAN ; ANALISTA REINALDO POLITO)
A situação de Lula é bastante desconfortável, quase dramática. As pesquisas não lhe são favoráveis. De todos os institutos, o que mais se aproximou do resultado no primeiro turno foi a Gerp, a única a apontar Flávio à frente na véspera. Ela merece, portanto, ser levada em conta com mais atenção.
A pesquisa que acertou
Agora, no segundo turno, esse mesmo instituto dá 10 pontos de vantagem para o candidato da oposição nos votos válidos. Os outros, que erraram mais no primeiro turno, também mostravam Flávio na dianteira até esta quarta, com diferenças menores, algumas dentro da margem de erro.
Por isso, a dez dias do pleito, Lula adota a política do vai ou racha. Pelo levantamento do Poder360, o pacote de bondades do ano eleitoral chegou a R$ 248,7 bilhões. O que se questiona é o que o governo eleito fará para cobrir esse rombo financeiro.
Bilhões para conquistar votos
As medidas eleitoreiras parecem não ter fim. A mais recente é o Prospera MEI, anunciado na terça, que inclui perdão de R$ 12,86 bilhões em dívidas com a União e o Pix MEI. Na sexta passada, o governo zerou os tributos federais da gasolina, por 30 dias. Tudo ali na boca da urna. Explicações é que não faltam. Para justificar a medida, o governo alega a alta do petróleo com a guerra no Oriente Médio e diz que ela é temporária.
Não é fácil para Flávio fazer oposição a essas decisões, pois correria o risco de se mostrar antipático com o eleitorado, que a essa altura pode agir mais pela emoção que pela razão. Para rebater as fake news, a estratégia não poderia ser diferente da que adotou: negar com veemência e indignação as inverdades.
O caso de Nossa Senhora Aparecida
Em 23 de setembro, viralizou nas redes a mentira de que Flávio tiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Ele tentou “recolher as penas”, mas boa parte do estrago já estava feita. No dia seguinte, atribuiu as postagens à “milícia do PT”. Declarou em uma gravação: “sou surpreendido com uma mentira, uma fake news”.
A história foi ardilosa. As postagens tiraram de contexto uma fala dele de agosto, de que decretaria que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Incluíram ainda um projeto de lei de 2007 que trocaria a “padroeira do Brasil” por padroeira dos católicos. Em 28 de setembro, em podcast, ele reforçou o tom indignado: “Eu posso considerar uma espécie de facada essa fake news em mim”. Dois dias depois, o TSE manteve a decisão do ministro André Mendonça de derrubar as publicações.
A escala 6×1
Outras questões são mais difíceis de rebater, como o fim da escala 6×1. Como Flávio pode dizer que é contra essa medida a menos de duas semanas da eleição? Por outro lado, não pode abraçá-la sem reservas, já que ela tem tudo para prejudicar as empresas e talvez os próprios trabalhadores. A saída foi aderir com ressalvas.
Na terça, depois de visitar o pai em prisão domiciliar, Flávio anunciou que votará a favor da PEC. A justificativa: “a maioria dos trabalhadores brasileiros querem o fim da escala 6×1”. Uma guinada de 180 graus, após meses criticando a proposta. Para se proteger, indicou a interlocutores do setor empresarial que a PEC poderia ser revisada pelo Congresso, a depender dos efeitos sobre o emprego e a atividade econômica.
Os debates
Finalmente, as discussões sobre participar ou não dos debates. No primeiro turno, Flávio havia confirmado presença no debate da Globo, mesmo com a ausência anunciada de Lula, mas desistiu depois que o TSE, a pedido da coligação do presidente, mudou as regras horas antes do programa. Com isso, a emissora cancelou o encontro.
Também na terça, depois de participar de evento no comitê de Tarcísio, Flávio afirmou sobre o debate da Band: “Não vou, não está previsto ir nesse debate domingo.” Lula esfregou as mãos e enviou um vídeo à emissora confirmando que iria. Era tudo o que o presidente queria: um palco livre, com o púlpito do adversário vazio.
Um blefe?
A alegria durou pouco. Na quarta, Flávio disse em vídeo: “Lula, como você é previsível, né? (…) É claro que eu vou no debate. Eu só queria que você confirmasse”. E completou: “O que eu já queria ter feito desde o primeiro turno e você fugiu”. Se Lula pretendia chamá-lo de fujão, a ideia foi neutralizada, e quem acabou acusado de fugir foi o próprio presidente. Alguns veículos dizem apenas que ele recuou. Se foi ou não um blefe calculado, ninguém poderá confirmar ou contestar, mas que deu certo, deu. Que venham as próximas novidades. Siga pelo Instagram: @polito
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