11 de agosto: os caras-pintadas, o fiat elba de Collor e o Brasil de hoje. O que mudou?
Há datas que não devem ser apenas lembradas, mas compreendidas. O dia 11 de agosto de 1992 é uma delas. Naquele dia, milhares de pessoas foram às ruas em São Paulo para protestar contra o então presidente Fernando Collor de Mello. Em frente ao MASP, começaram a surgir os rostos pintados de preto, verde e amarelo que, poucos dias depois, se espalhariam pelo país. Nasciam os caras-pintadas, símbolo de uma geração que decidiu deixar de ser espectadora e participar ativamente da vida política brasileira.
O motivo daquela indignação era um escândalo que envolvia o então tesoureiro de campanha de Collor, Paulo César Farias, o famoso “PC Farias”. As investigações apontavam para um esquema de tráfico de influência e arrecadação ilegal de recursos, e até despesas pessoais do presidente entraram no centro das apurações. O famoso Fiat Elba, comprado com recursos ligados ao esquema investigado, acabou se tornando o símbolo de uma crise política que culminaria no impeachment de Collor.
34 anos depois, é inevitável fazer um paralelo com o Brasil de hoje. Em 1992, um automóvel tornou-se símbolo de uma indignação nacional. Hoje, os escândalos envolvem cifras que chegam à casa dos bilhões. As fraudes nos descontos indevidos de aposentados e pensionistas do INSS, por exemplo, levaram as investigações a estimar prejuízos de até R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024. O caso do Banco Master, por sua vez, também colocou sob investigação suspeitas envolvendo operações financeiras e possíveis irregularidades, alcançando diferentes setores do poder econômico e político.
E talvez a pergunta mais incômoda seja justamente esta: por que a sociedade parece reagir de maneira tão diferente?
E parece que hoje nada acontece, a justiça parece que são só par alguns, parece que existem dois brasis! Até existem investigações, operações policiais, bloqueios de bens e processos em andamento. Mas o problema é a sensação que fica para o cidadão comum: a de que, diante de cifras bilionárias e relações cada vez mais complexas entre dinheiro e poder, a responsabilização parece distante, lenta e, muitas vezes, incompreensível. A sensação é de um país de impunidades!
Essa reflexão ganha ainda mais peso quando lembramos que a carga tributária brasileira chegou a 32,4% do PIB em 2025, um dos níveis mais elevados do mundo. O cidadão trabalha, produz, empreende e paga impostos para financiar o Estado. Por isso, tem todo o direito de perguntar como esse dinheiro está sendo administrado e exigir transparência, eficiência e responsabilidade.
A democracia, afinal, não termina quando termina a eleição. A Constituição estabelece que todo o poder emana do povo. Isso significa que o cidadão não deveria entregar seu voto e desaparecer da vida pública até a próxima eleição. Fiscalizar, questionar, cobrar e exigir explicações também são formas de exercer democracia.
Os caras-pintadas nos deixaram uma imagem que atravessou décadas. Mas talvez a maior herança daquele movimento não esteja nos rostos pintados, e sim na consciência de que o poder popular existe.
A tinta saiu do rosto. Collor saiu da Presidência. A história seguiu.
Mas a pergunta continua atual: se todo o poder emana do povo, por que tantas vezes o cidadão parece tão distante do poder?
Talvez porque o maior risco para uma democracia não seja apenas o abuso de quem governa. Seja também a acomodação de quem deveria fiscalizar.
E quando o cidadão se acostuma com o absurdo, aquilo que deveria provocar indignação começa, perigosamente, a parecer normal.
Equipe editorial do site Tropical Notícias, formada por jornalistas e redatores especializados em cobrir os principais acontecimentos da região.
Jornalista com especialização em Comunicação e Marketing, possui formação internacional em Coaching e Leadership pela Ohio University (EUA) e especialização em Docência do Ensino Superior. Atualmente cursa MBA em Inteligência Artificial. Palestrante e consultor em Desenvolvimento Pessoal com 21 anos de experiência em comunicação e vivência cultural em 12 países.















