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OpiniãoQuatro Pontes

Campanha eleitoral gratuita, quase R$5 bilhões em dinheiro público e uma pergunta incômoda: o povo realmente quer isso?

Começou o horário eleitoral gratuito. E eu gostaria de propor uma reflexão que talvez incomode um pouco. Mas não é justamente uma das funções da comunicação e do jornalismo provocar reflexão, levantar questionamentos e estimular o cidadão a pensar?

Nós, enquanto veículo de comunicação, temos aproximadamente 10 mil ouvintes acompanhando diariamente a nossa programação e mais de 20 mil seguidores em nossas redes sociais. E decidimos fazer uma coisa bastante simples: perguntar a essas pessoas o que elas pensam sobre o horário eleitoral gratuito. Porque, antes de falar sobre aquilo que os políticos querem dizer, talvez seja interessante perguntar o que o povo quer ouvir.

Afinal, democracia não é apenas colocar uma urna diante do cidadão a cada quatro anos. Democracia também é ouvir.

Na consulta que estamos realizando, apresentamos três possibilidades;

A primeira: épara quem considera o horário eleitoral importante justamente porque oferece aos candidatos a oportunidade de apresentar suas propostas.

A segunda: é para quem entende que o espaço é importante, mas poderia ser mais curto e concentrado, talvez apenas na última semana da campanha.

E a terceira; é para quem não considera necessária a veiculação da propaganda eleitoral gratuita e entende que, se quiser conhecer as propostas de determinado candidato, pode procurar essas informações por conta própria.

É uma discussão que merece ser feita.

Porque, sejamos sinceros: para quem acompanha rádio, televisão e redes sociais durante uma eleição, é uma quantidade enorme de informação. Em 2026, além dos programas em bloco, as emissoras de rádio e televisão precisam reservar 70 minutos diários para inserções eleitorais de 30 e 60 segundos, distribuídas ao longo da programação.

E aí surge uma pergunta bastante simples: quantidade significa necessariamente qualidade?

Será que mais tempo de propaganda significa que o eleitor estará mais bem informado?

Talvez não.

O cidadão precisa conhecer quem está pedindo o seu voto. Precisa conhecer suas propostas, seus projetos, seu passado, sua capacidade e, principalmente, a coerência entre aquilo que está sendo prometido e aquilo que realmente pode ser realizado.

O problema aparece quando o espaço destinado à comunicação com o eleitor acaba transformado em palco para ataques. É um candidato falando do outro, uma resposta ao ataque anterior, uma provocação, uma tentativa de desqualificação. E, no meio disso tudo, muitas vezes sobra pouco espaço para aquilo que realmente interessa à população.

O eleitor quer saber sobre saúde, educação, segurança, emprego, impostos, infraestrutura, desenvolvimento econômico e qualidade de vida. Quer saber quais são as prioridades de cada candidato, como pretende executar suas propostas, quanto elas vão custar e, principalmente, de onde virão os recursos.

Isso seria uma campanha eleitoral madura.

Não acredito que o cidadão acorde pela manhã pensando que gostaria de ouvir mais uma discussão entre políticos. O que ele quer é informação que possa ajudá-lo a tomar uma decisão. Quer entender quem está preparado, quem tem propostas consistentes e quem apresenta condições reais de cumprir aquilo que está prometendo.

E existe ainda uma outra questão que precisa entrar nessa conversa: o dinheiro.

Nas Eleições 2026, o Fundo Especial de Financiamento de Campanha, conhecido como Fundo Eleitoral, soma R$ 4,961 bilhões. Trata-se de dinheiro público destinado ao financiamento das campanhas eleitorais.

Quase cinco bilhões de reais.

E aqui cabe uma pergunta que considero legítima: quem perguntou ao cidadão se ele gostaria que quase cinco bilhões de reais fossem destinados dessa maneira para financiar campanhas políticas?

Porque nós estamos perguntando ao povo se ele considera importante ouvir propaganda eleitoral. Mas será que alguém perguntou ao povo se ele concorda com a forma como as campanhas são financiadas?

É claro que existe uma legislação que estabelece a existência do Fundo Eleitoral, seus critérios e sua distribuição entre os partidos. Isso é fato. Mas uma coisa é a legislação determinar que determinado recurso pode ser utilizado para essa finalidade. Outra coisa é a sociedade discutir se esse modelo é o mais adequado para o país.

E talvez seja justamente essa discussão que esteja faltando.

Imagine o que quase cinco bilhões de reais poderiam representar em investimentos em educação, formação profissional, qualificação de jovens, tecnologia, empreendedorismo, saúde ou tantas outras áreas que enfrentam dificuldades e precisam de recursos.

Não se trata de apresentar uma solução simplista para um problema complexo. Trata-se de fazer uma pergunta incômoda: será que estamos utilizando da melhor maneira possível os recursos públicos?

E existe uma contradição interessante nisso tudo.

Para decidir quem vai administrar o dinheiro público, nós precisamos ouvir os políticos.

Mas aqueles que pretendem administrar esse dinheiro também deveriam ouvir muito mais o cidadão.

Ouvir antes de falar. Ouvir antes de prometer. Ouvir antes de atacar. Ouvir antes de gastar.

Talvez a política brasileira pudesse começar por algo muito simples: escutar.

Escutar o que as pessoas realmente querem. Entender quais são suas prioridades. Perceber quais problemas estão presentes no cotidiano. E, a partir disso, construir propostas que façam sentido para a vida real.

Porque eleição não deveria ser uma competição para descobrir quem consegue falar mais alto, atacar melhor ou produzir o discurso mais agressivo.

Eleição deveria ser uma oportunidade para o cidadão escolher quem considera mais preparado para conduzir os destinos da sociedade.

E talvez seja justamente aí que esteja a maior reflexão.

O eleitor não é apenas aquele sujeito que aparece diante da urna e aperta um número. Ele é também quem trabalha, paga impostos, enfrenta os problemas do dia a dia e, direta ou indiretamente, financia a estrutura do Estado.

No fim das contas, é ele quem paga a conta.

Talvez esteja na hora de a política lembrar disso.

Redação em Tropical Notícias |  + posts

Equipe editorial do site Tropical Notícias, formada por jornalistas e redatores especializados em cobrir os principais acontecimentos da região.

Diretor de Comunicação na Rádio Tropical FM |  + posts

Jornalista com especialização em Comunicação e Marketing, possui formação internacional em Coaching e Leadership pela Ohio University (EUA) e especialização em Docência do Ensino Superior. Atualmente cursa MBA em Inteligência Artificial. Palestrante e consultor em Desenvolvimento Pessoal com 21 anos de experiência em comunicação e vivência cultural em 12 países.